- Em Roka Koang, a cerca de 45 quilômetros de Phnom Penh, barcos retiram areia do Mekong, enquanto a erosão das margens piora a cada ano desde 2015.
- Existem quarenta e nove licenses de mineração de areia na Mekong e no Bassac, abrangendo 2.320 hectares; a passagem de volumes relevantes de areia foi de 11,7 milhões de m³ em 2020, 11,5 milhões de m³ em 2021, e já foram registradas grandes remoções em 2022 no first semestre.
- Moradores relatam desmoronamentos, perda de terras e de habitações, comprometendo meios de subsistência; o governo insiste em reparos temporários e não reconhece ligação com a mineração.
- Pesquisadores internacionais alertam que a extração de areia pode reduzir o leito do rio e afetar ecossistemas, o Tonle Sap e a intrusão salina, com impactos não evidenciados pela narrativa oficial.
- Empresas ligadas a atores influentes têm licenças para extrair, com críticas de que o lucro supera proteção ambiental; fundos comunitários existem, mas são pouco conhecidos e com poucos projetos concluídos.
ROKA KOANG, Camboja — No Mekong, a montante a 45 km de Phnom Penh, barcos bombeiam areia do leito. Outros 11 barcos, com cascos baixos, seguem para a capital com o material extraído. O fenômeno acontece desde 2015, quando licenças foram oferecidas pela pasta de Mineração e Energia.
A erosão das margens ameaça casas desde 2016, levando moradoras a mudar de lugar repetidamente. Voi Thy reside na comuna homônima, já viu trepidação do solo aumentar, com grandes desabamentos ocorridos em 2021. A comunidade relata quedas de infraestrutura e moradias.
O contexto é de mineração de areia promovida por empresas ligadas a elites políticas, com forte influência sobre reguladores. Parte da areia é destinada ao mercado doméstico, parte exportada para o Vietnã, impulsionada pelo crescimento da construção no país.
Contexto da mineração e impactos
Gerentes estaduais afirmam que a mineração financia o desenvolvimento, defendendo que apenas uma pequena parcela do rio seria utilizada. Pesquisadores independentes apontam baixa reposição de sedimentos e riscos ambientais, destacando que a prática reduz a estabilidade das margens.
Dados oficiais indicam 49 licenças ativas em rios Mekong e Bassac, cobrindo milhares de hectares. Entre 2020 e 2021, volumes de areia extraídos chegaram a cerca de 11,5 milhões a 11,7 milhões de m³, com início de 2022 registrando mais de 6 milhões de m³ no primeiro semestre.
Realidades na margem do Mekong
Residentes de Roka Koang afirmam que o abandono da pesca e a erosão afetam a subsistência. Moradores descrevem a perda de ilhas, poços e áreas de pesca, levando à venda de materiais como cascalho para complementar a renda.
Com a elevação da atividade, as autoridades locais promovem intervenções temporárias na margem, incluindo sacos de geotêxteis e estruturas de rochas. Técnicos explicam que as defesas foram dimensionadas para reduzir a erosão, mas a percepção popular aponta que os problemas persistem.
O representante técnico de uma força-tarefa da água afirma que a erosão é tradicional, mas reconhece agravantes nos últimos 5 a 10 anos. O debate envolve mudanças na gestão das obras de mineração, transferidas do Ministério de Água para o de Mineração e Energia.
Controvérsia institucional e interesses
O governo sustenta que licenças obedecem a procedimentos, sem favoritismos, e que avaliações de impacto ambiental existem, embora não sejam publicadas. Acadêmicos internacionais contestam a narrativa oficial, destacando evidências de que a extração excede a capacidade de reposição natural.
Especialistas apontam que a redução do leito do Mekong pode exigir maior aporte hídrico para o Tonle Sap, afetando a pesca e a sazonalidade de migrações de espécies, com impactos de longo prazo no ecossistema.
Conexões e transparência
Observadores ressaltam vínculos entre empresas mineradoras e figuras políticas de alto escalão. Associadas a Try Pheap e ao Prince Group, algumas firmas enfrentam questionamentos sobre licenças, endereços de registro e relações com familiares de autoridades.
Diversas empresas mineradoras atuam em Roka Koang, com licenças que permitiram a operação no trecho do Mekong. A oposição aponta falta de transparência na divulgação de estudos de impacto ambiental e na distribuição de recursos de fundos comunitários.
Perspectivas para o futuro
Moradores relatam não ver benefícios tangíveis com os recursos destinados a defesa de margens ou ao desenvolvimento local. Muitos dependem da pesca artesanal ou da venda de cascalho para sobreviver, enquanto o risco de novas erosões persiste.
Especialistas independentes destacam a necessidade de equilíbrio entre desenvolvimento e proteção ambiental, alertando para impactos acumulados com mudanças climáticas, desmatamento e barragens hidroelétricas.
O panorama em Roka Koang ilustra um dilema central da região: o crescimento urbano depende de insumos extraídos dos rios, mas a escala da atividade coloca em risco o solo, a água e a própria sobrevivência de comunidades ribeirinhas.
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