- A Honda registrou encargos de depreciação de US$ 15,7 bilhões por aposta considerada tardia em veículos elétricos, contribuindo para um possível primeiro prejuízo anual.
- A empresa vê queda contínua em seus carros, com quatro trimestres consecutivos de perda operacional, e ações caíram mais de 7% após o anúncio.
- Nos EUA, principal gerador de receita, as vendas cresceram apenas 0,5% no último ano, enquanto a China, anteriormente promissora, estagnou.
- Em resposta, a Honda cancelou projetos EV da Série 0 e do Acura RSX, e avançou com a compra de participação na LG Energy Solution para uma fábrica de baterias em Ohio (US$ 4,4 bilhões).
- A reestruturação inclui retorno do desenvolvimento de veículos à unidade de P&D, alinhando a empresa a uma estratégia de EVs mais integrada, com meta revisada de venda de elétricos para 20% do mix.
A Honda Motor enfrenta uma crise em sua transição para os veículos elétricos, após investir pesado em um boom que durou pouco. A empresa divulgou encargos de depreciação de US$ 15,7 bilhões, maior parte ligada a elétricos lançados recentemente e que foram descartados pouco antes do lançamento. A notícia veio antes da divulgação provável do primeiro prejuízo anual da companhia.
As ações da Honda caíram mais de 7% após a divulgação, com queda de 1,7% em Tóquio na segunda-feira. A empresa não consegue recuperar a confiança dos investidores diante de um portfólio de automóveis envelhecido e dúvidas sobre o seu futuro como fabricante automotivo.
A crise não se restringe à corrida por EVs. Nos EUA, maior gerador de receita da Honda, as vendas cresceram apenas 0,5% no ano anterior, enquanto a presença da China, antes promissora, estagnou. O resultado foi uma sequência de quatro trimestres de perdas na área automotiva, a mais longa desde o desastre de Fukushima.
Segundo Tatsuo Yoshida, analista da Bloomberg Intelligence, as perdas com elétricos foram grandes demais para serem compensadas pelos demais negócios da Honda. Em contraste, a divisão de motocicletas segue lucrativa, ajudando a Mitsubishi a sustentar parte do negócio.
Historicamente, a Honda foi pioneira em tecnologia híbrida nos EUA, com o Insight superando o Prius em meses. Hoje, a fabricante oferece apenas quatro modelos híbridos, contrastando com 29 opções da Toyota. Mesmo com a meta de ampliar híbridos, a Honda reduziu a produção de híbridos nos EUA.
A Toyota acelerou a adoção de híbridos em quase toda a linha, inclusive em modelos-chave como Camry, Sienna e Sequoia. A Ford, por sua vez, lançou o Maverick híbrido e planeja ampliar a oferta híbrida em quase todos os modelos, com os híbridos representando uma parcela relevante das vendas de caminhões F-150.
A Honda não oferece opções híbridas em caminhões, minivans ou SUVs maiores, e reintroduziu o cupê Prelude como híbrido no fim do ano passado, mas o modelo teve baixa demanda, com apenas 299 unidades vendidas no mês anterior. A empresa apostava em seus dois EVs da Série 0 e no Acura RSX elétrico, que seria lançado nos EUA no próximo ano, mas todos os três foram descartados na reorientação estratégica.
Analistas destacam que a série 0, antes vista como peça central da estratégia SDV, foi posicionada como mudança de rumo pouco antes de ser descartada. A Bernstein avaliou a decisão como surpresa, em nota de pesquisa de março.
Reestruturação e mudanças estratégicas
O CEO Toshihiro Mibe rompeu com a tradição da Honda de foco em motores de combustão para acelerar a transição para motores elétricos até 2040. A meta inicial de 40% de vendas de EV até 2030, depois reduzida para 20%, encontra-se fragilizada pela realidade do mercado.
Em 2021, a GM iniciou uma parceria com a Honda para desenvolver EVs, que acabou sendo interrompida por demanda morna nos EUA. O Prologue EV, lançado em 2024, ficou abaixo das expectativas de venda, registrando 1.067 unidades em um mês recente, queda de 64% frente ao ano anterior.
Ainda neste ano, a Honda ampliou o investimento em baterias, comprando participação da LG Energy Solution em uma fábrica de US$ 4,4 bilhões em Ohio. A decisão ocorreu apesar de recuos de concorrentes como Ford e Stellantis em projetos semelhantes.
A empresa também sinalizou mudanças estruturais: em fevereiro, reverteu uma modificação organizacional de seis anos que separou desenvolvimento de veículos da P&D avançada, colocando novamente o desenvolvimento de veículos sob a alçada da P&D. A medida é interpretada como reconhecimento, por parte da Honda, de que o foco no produto automotivo precisava ser reformulado.
Perspectivas e próximos passos
Histórico de metas de venda da Honda remonta a 2012, quando o então CEO Takanobu Ito estabeleceu ambições agressivas de ampliar a produção global. Desde então, a empresa não recuperou o fôlego frente a rivais que avançaram com maior velocidade em inovação, eficiência e eletrificação.
A Honda anunciou que detalharia planos de uma revisão de negócios na apresentação dos resultados anuais, prevista para maio. A comunicação formal deverá reiterar as mudanças estratégicas para o portfólio e para a condução de veículos elétricos no curto e médio prazo.
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